quinta-feira, 20 de abril de 2017

Artista sergipano Véio mostra esculturas na Gustavo Rebello Arte


Exposição tem abertura no dia 25 de abril, em Copacabana

O sergipano Cícero Alves dos Santos, conhecido no mundo das artes como Véio, mostra suas esculturas talhadas em troncos, galhos e raízes, entre 25 de abril e 26 de maio, na Gustavo Rebello Arte, em Copacabana, nessa que é a sua primeira individual no Rio de Janeiro. O trabalho deste artista combina aspectos da tradição popular - como a escultura em madeira, o aproveitamento das figuras sugeridas por troncos e galhos e o uso de ferramentas rudimentares - com cores intensas, muito mais próximas das cores industriais que dos matizes da natureza.



Essa estridência algo pop é intensificada por uma imaginação formidável, que nos faz ver em suas madeiras figuras híbridas, que compartilham traços dos bichos que conhecemos com osandroides e transformers de filmes e desenhos animados. Com um simples canivete, Cícero esculpe formas diminutas em tamanho, mas com uma figuração enigmática, que lhes restitui a força reduzida pela escala.

Cícero Alves dos Santos vive nos arredores de Nossa Senhora da Glória, uma importante cidade do sertão de Sergipe, com aproximadamente 50 mil habitantes e uma feira de renome no Estado. A convivência com um ambiente tão ambíguo e dinâmico certamente instigou ainda mais o talento desse sertanejo incomum, que fez da preservação da memória de sua gente a razão de sua existência, mostrando um mundo rural que vai desaparecendo. Trabalho este que já foi exibido em Londres, em individual na Seeds Gallery, e já participou de coletiva na Fundação Cartier, em Paris.

"Quando a Vilma Eid, da Galeria Estação, sondou-me a respeito de uma mostra do trabalho do Véio, minha resposta afirmativa foi imediata. A obra do artista sempre me fascinou,pois dialoga com as questões da arte brasileira atual, não fica restrito ao rótulo de arte ingênua e popular, transcende”, analisa o galerista, Gustavo Rebello.

“O que chama logo a atenção é o modo livre e franco como essa fauna imaginária chega ao real. Quase sempre em movimento, mais ou menos como um bicho sai do mato e, de repente, surge à nossa frente. Não sei, sinceramente, se Véio conhece Picasso e Miró. Em todo caso, eles o conhecem, rondam o seu imaginário, participam de seu processo de produção. A divertida economia de meios, a espontaneidade com que vêm a ser, certo tônus vital descontraído, talvez as deixem mais à vontade sob a rubrica do Pitoresco”, analisa o curador da exposição, Ronaldo Brito.        

Véio é como um repentista ágil, a improvisar com as madeiras nativas de seu habitat agreste, acompanhando ou contrariando as rimas de sua morfologia, e delas tirar efeitos inesperados. Alguma peças se me afiguram quase ready-mades do sertão - duas ou três manobras inspiradas bastam ao artista para transformar os galhos secos de uma árvore morta num bicho ligeiro de escultura.

“A nenhum texto crítico, ainda que curto e despretensioso, seria perdoável calar-se diante dopequeno escândalo que representa a cor na escultura de Véio. E não apenas porque se mostram cores abertas, sem nuances ou matizes, extrovertidas e vibrantes, aptas a competir com a luz brutal do sertão. Mesmo o seu negro parece suscetível de brilhar no escuro. O importante é que atuam de maneira substantiva na definição do corpo da escultura, caracterizam a sua personalidade. Intuitivamente, Véio faria um uso topológico da cor. Elas promovem a interação entre as partes das peças de modo a torná-las um Todo descontínuo moderno. As esculturas não se resumem a simples figuras projetadas contra um fundo neutro. Elas reagem a seu entorno, acontecem no mundo”, analisa o curador da exposição, Ronaldo Brito.